A recente determinação do Tribunal de Contas de Santa Catarina, que deu 60 dias para o governo estadual apresentar um plano de ação continuado para as pontes Colombo Salles e Pedro Ivo Campos, traz à tona um tema que há muito exige atenção: a necessidade de gestão preventiva, contínua e inteligente das obras de infraestrutura. Não se trata apenas de cumprir uma exigência técnica, mas de transformar a cultura da manutenção no país.
Por décadas, o Brasil tem reagido a falhas estruturais em vez de antecipá-las. Isso custa caro e, muitas vezes, custa vidas. Basta lembrar da queda da ponte Juscelino Kubitschek, que ligava o Tocantins ao Maranhão pela BR-226, em dezembro passado. Foram 17 vítimas. No início deste ano, o DNIT revelou que SC tem 11 pontes em rodovias federais em estado ruim ou crítico.
A ausência de históricos consolidados, cronogramas de inspeção atualizados e rastreabilidade completa das intervenções faz com que a gestão das chamadas obras de arte especiais (pontes, viadutos e túneis) dependa da memória institucional, quando deveria se basear em dados. É aqui que a tecnologia assume um papel decisivo.
Plataformas digitais permitem centralizar informações, registros fotográficos georreferenciados e relatórios padronizados. Esse tipo de solução já é amplamente utilizado em concessões rodoviárias reguladas por órgãos como a ANTT e a ARTESP, pioneiras ao exigir sistemas específicos para o acompanhamento digital dos serviços.
Essas ferramentas permitem não apenas planejar inspeções, mas também identificar padrões de deterioração e agir antes que um problema se agrave. O uso de sensores IoT, drones e algoritmos de análise abre caminho para o monitoramento contínuo da integridade estrutural, detectando anomalias em tempo real e auxiliando na tomada de decisões baseadas em evidências. É a transição da manutenção corretiva para a manutenção preditiva.
Os resultados são expressivos: redução de até 75% no tempo de emissão de relatórios técnicos, maior eficiência nas respostas a auditorias e economia significativa de recursos públicos e privados.
A Federal Highway Administration (órgão dos EUA que administra rodovias) estima que ações emergenciais sejam até cinco vezes mais onerosas do que os investimentos em prevenção. Mais do que isso, a tecnologia oferece transparência — órgãos fiscalizadores, gestores e sociedade podem acompanhar o estado das obras e o andamento das manutenções.
Santa Catarina tem a oportunidade de se tornar referência nacional em gestão inteligente de pontes. Com a adoção de plataformas digitais e de um plano de ação baseado em dados, é possível garantir mais segurança à população, ampliar a vida útil dos empreendimentos e transformar o modo como cuidamos da nossa infraestrutura.
Marcos Hollerweger é Diretor de Produtos e Tecnologia da Kartado, empresa catarinense especializada em soluções digitais para gestão de ativos e serviços de campo
(Artigo publicado no Jornal ND, em 23 de outubro de 2025)
Marcos Hollerweger
Engenheiro eletrônico com experiência internacional, Marcos lidera produto e tecnologia na Kartado desenvolvendo soluções práticas para gestão de ativos de infraestrutura. Entusiasta de tecnologia desde sempre, acredita que “feito é melhor que perfeito” e que tecnologia deve resolver problemas reais – não criar novos.


